terça-feira, 29 de julho de 2014

Ibe_rê

- Tu falas feito um poeta. É artista?
- Não. 
E fugi desse assunto pq naquele instante estava tentando ser casual, melhor dizendo, querendo uma "experiência casual legítima", completamente vulgar. Só que sei lá pq falamos sobre delírios e provocações, sobre a idade e seus tempos, partidos e corações, e mesmo que quisesse ser sacana,..., a conversa despencava pro oposto da minha intenção.
- Tu és escritor?
- Não!
E eu fugia imensamente desse assunto. "Essa coisa é mais forte do que eu", pensei. Não consigo me ocultar? Só que de repente como um ímã, o prazer se faz no pensamento e o pensamento se faz no prazer. Imagino que não pelo fato do sexo ter se tornado tão fácil que devamos ser fáceis no pensar e imbecis nas relações,,,,,,, pegando atalhos, frases feitas, memês, artigos em blogs, frases da psicanálise ou aquelas perguntas a que se dirige no "açougue".

Claro, saber do tempero e suas doses exige algo mais que:
* um microondas,
* a ponta do dedo pra teclar 
* e a comida pré-pronta.

Mas não é pq a refeição é fácil de ser feita que o pensamento tem de ser ralo, que as relações interpessoais devam ser basicamente medíocres pra atingir o gozo... sinto assim.
- Não, mas cara... tu é artista né?
- Tchê! Tá, vou te mostrar umas coisas... aí tu me diz.
* olha, olha, olha *
- Tu deveria saber que ao artista não cabe o anonimato. Eu como um cidadão comum posso me dar a esse luxo, mas não tu.
- Cara. Nesse mundo de modelo "mostração",..., procuro um modo de não ser confundido com uma vitrine linda. A arte tem um muito de autoreferência e eu trabalhando com certos aspectos, como autorretrato... me deixa ainda mais com ganas de ter cuidado.
- Mas eu te percebi na multidão.
- HAHAHA. Eu não sei, só busco um modo de não me enfraquecer...
- Não acha que isso NÃO é um problema teu?
- Procuro o cuidado, mas sei que minha cabeça pode ser um inferno.
- Eu vejo.
- HAHAHA. Mas parece que gosta! HEHE. Vá, não é tanto assim...
- Falando sério. Esse aspecto de ser desconhecido não cabe a quem tenha o que dizer. Não precisa publicar que shorts está vestindo, mas pode usar os meios sem medo.
- De repente se pode potencializar esta merda de fato.
- De repente. Mas não queira o anonimato! 
Disse, naquele sorriso sacana que usava pra falar da Andradas e Guaíba, Iberê a Bethânia.

E ao mesmo tempo que tentava eu ser casual, ele tentava ser um cidadão comum. E claro que essa tentativa não deu muito certo pra nenhum dos dois.

#MateusCapelo

domingo, 29 de junho de 2014

Do dia


Desenhando, esculpindo, intervindo, lendo, escrevendo e cozinhando. Enquanto desenho, na imagem salta um pensamento que tem necessidade de ser escrito. Ja impossibilitado de ver os traços, passo a esculpir dando pequenos espaços de tempo pra obra respirar. Leio... preciso comer... cozinha cantando.

No som: Elis, Legiao, EngHaw, Radiohead, Nirvana, Chet, Secos, Capelo , Pescado Rabioso,...


CIGA - RJ

Momento concentração (ou tentativa) no CIGA em abertura da exposição doAlexandre Mury, "Eu sou a pintura". Entre fotos, risos, cevas, pessoas, conversas e lá se vai...


http://www.artrio.art.br/pt-br/agenda/eu-sou-pintura-individual-de-alexandre-mury


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Qorpo Santo

 Qorpo Santo (1829-1883) foi um escritor/dramaturgo/gramático/professor/poeta/jornalista brasileiro geralmente associado como precursor do chamado teatro do absurdo. E claro, pouquíssimo conhecido. Há uma postura que o compreende como uma mistura do teatro brasileiro da época: a comédia de costumes + teatro realista + farsas portuguesas de Antonio José, gerando  uma obra única e dando o grande tiro antes das vanguardas do século XX.  Mas como o "Brasil não conhece o Brasil", assim vai matando o Brasil.

  Ontem a noite tive a sorte de assistir uma peça sobre sua vida-obra no Teatro Bruno Kiefer. Precisava arejar, ver alguma coisa que me alimentasse... Então caminhei pelo Gasômetro, ouvi duas bandas de rock que lá tocavam, retornei às Andradas e subi ao Teatro, sendo o último a entrar (já em tempo esgotado).
 Todos em cena (e eu mal conseguindo sentar), instrumentos de corda abrem o espetáculo(violino, cello, viola,... Sonoplastia/trilha sonora espetacular acompanhou a peça (que ia de gemidos/estalos com boca/batida de pé até sopro).

 Os primeiros cinco minutos dizem a que veio este homem: debochado, filosófico, professor. Os hilariante  delírios de Qorpo Santo, que adotou esse nome por pregar a castidade após o abandono da mulher e filhas, é um algo que acompanha a peça de início ao fim. Pela sua mania de escrever sobre tudo (não sendo um mal reconhecido pelos especialistas no Rio de Janeiro, declarando gozar de boa saúde), principalmente por querer gerir seus bens, a esposa entra com uma ação que põe em dúvida sua sanidade. Embora nove laudos negativos contra um, foi considerado louco pela justiça da província de São Pedro.

 Mais espetacular é sua "defesa" no tribunal gaúcho:
- Tu estás falando de sonhos, e aqui nos interessa a realidade. diz o 'especialista 1', o único a considera-lo insano.
- Na verdade, eu penso o contrário de meu colega, diz o 'especialista 2'. Para nós, interessam os sonhos, assim como para os artistas e loucos: onde tu te encaixarias?
- Oras! Eu não vou te responder pq este é o teu trabalho!

 Sendo assaltado algumas vezes, na última, resolveu pregar as portas de sua casa e usar uma das janelas para entrar e sair de casa (onde era posta uma escada). A cidade fala mais de seu método anti-furto, considerando "estranho/louco", mas não estranha a violência, os assaltos. Percebendo isso, mais uma vez ele escarnece.

___
 Outro diálogo:
- A senhora é uma puta!
- Sabe que muitos dizem isso, mas eu ainda não me convenci?!?!
___

 Assim. Espetacular e preciso. Quando vejo essas coisas, pergunto-me: quão gigantes seríamos se tivéssemos encontrado nossa história? A história de nossos iguais, de nosso entorno. Não apenas o jeitinho, a malandragem, a roubalheira, a colonia... mas e se pusessem sua preguiça de lado a fim de colocar a cabeça a funcionar, não apenar para o conforto... mas conhecer o que "foi feito para melhor prosseguir"?

 E eu vou desenhando e fotografando... deixando espaços vazios/abertos entre o indivíduo e o lugar/momento para me colocar a favor do conhecimento histórico: mínimo, edificador, autônomo.

 Uma das conversas/críticas sobre a escrita de Qorpo Santo, exposta em tom absurdo, faz a plateia gozar:
- Mas não me digas que tu vais ao teatro pra pensar?!?! Diz o 'especialista 1', como quem fala uma obviedade sobre o conforto do gozo a que todos desejam.

 O mais engraçado é lembrar quantas vezes eu já ouvi isso, mas retirando o "dispositivo" teatro, para rádio, tv e computador.
 Aiaiai.

domingo, 30 de março de 2014

Registro



Do meu fascínio por registro, tudo que pudesse grafar/gravar/imprimir sempre me encantou. Além da escrita, estes foram alguns baratos que me restaram de tempos antigos e até recentes.